O meu primeiro salário tinha 6 dígitos.
Seis.
E eis que, entre o quarto e o quinto, a vírgula.
Puta.
sábado, 20 de novembro de 2010
sábado, 6 de novembro de 2010
Ser gente
É ser pequeno o suficiente para nunca deixar de entender o que nos envolve, e grande o suficiente para nunca deixar de ser pequeno.
sábado, 23 de outubro de 2010
(aos que perdi)
Procuro-te
em cada pessoa que encontro
como se te encontrando nela, te buscasse inteiro
e pudesse ter-te de novo sob o meu abraço
Por que te procuro?
por que não deixas que te encontre?
Por que é que, para mim, já só existes disperso no existir de outros?
E quando te encontro
nesse bocado de alguém
sou feliz.
Já não como era
quando o teu sorriso desenhava o meu
Já não como era
quando o mundo era só nosso, para sempre
Já não é como era
quando ainda não te tinha perdido.
Onde estás? Para onde foste? Quem és agora?
Fica comigo, assim mesmo, disperso.
Prefiro a tua existência fragmentada do que admitir que te perdi.
E, buscando-te nos outros, uma vida inteira, talvez um dia te encontre inteiro.
E que então, num dia de sol, saiamos os dois para me procurar,
A mim, que igualmente fiquei dispersa em todos os que olhei para te buscar.
(aos que perdi e que encontro no silêncio)
em cada pessoa que encontro
como se te encontrando nela, te buscasse inteiro
e pudesse ter-te de novo sob o meu abraço
Por que te procuro?
por que não deixas que te encontre?
Por que é que, para mim, já só existes disperso no existir de outros?
E quando te encontro
nesse bocado de alguém
sou feliz.
Já não como era
quando o teu sorriso desenhava o meu
Já não como era
quando o mundo era só nosso, para sempre
Já não é como era
quando ainda não te tinha perdido.
Onde estás? Para onde foste? Quem és agora?
Fica comigo, assim mesmo, disperso.
Prefiro a tua existência fragmentada do que admitir que te perdi.
E, buscando-te nos outros, uma vida inteira, talvez um dia te encontre inteiro.
E que então, num dia de sol, saiamos os dois para me procurar,
A mim, que igualmente fiquei dispersa em todos os que olhei para te buscar.
(aos que perdi e que encontro no silêncio)
sábado, 9 de outubro de 2010
Mundo Novo
Não sei para onde vou. As horas sucedem-se. Os dias sucedem-se. E eu tenho saudades de quando as horas e os dias vinham devagar, uns a seguir aos outros, numa maré, confortante, de certezas absolutas. Tenho saudades de quem era quando o tempo me permitia ser alguma coisa e não apenas existir. É isso: agora existo. Existo simplesmente.
Estou cansada deste existir. Deste existir vazio. De desilusões. De pessoas. De tudo.
Estou cansada deste caminho. Deste caminho que não sei onde me leva. Deste caminho que comecei a trilhar não sei bem porquê. Apenas porque nasci, apenas porque os dias se sucedem, quer eu queira, quer não, cada vez mais rápido. Cada vez... mais rápido. Rá-pi-do!
Não, não quero tudo o que é efémero e não me contenta.
Quero o mundo, o mundo todo.
Apetecia-me parar.
PARAR.
Apetecia-me deixar de existir. Para, finalmente, começar a viver.
(apetecia-me inventar um mundo novo)
Estou cansada deste existir. Deste existir vazio. De desilusões. De pessoas. De tudo.
Estou cansada deste caminho. Deste caminho que não sei onde me leva. Deste caminho que comecei a trilhar não sei bem porquê. Apenas porque nasci, apenas porque os dias se sucedem, quer eu queira, quer não, cada vez mais rápido. Cada vez... mais rápido. Rá-pi-do!
Não, não quero tudo o que é efémero e não me contenta.
Quero o mundo, o mundo todo.
Apetecia-me parar.
PARAR.
Apetecia-me deixar de existir. Para, finalmente, começar a viver.
(apetecia-me inventar um mundo novo)
domingo, 1 de agosto de 2010
Os homens e os ratos
Dizem os cientistas que as características genéticas de homens e ratos são semelhantes, mais semelhantes do que entre o homem e outros animais. É por esta razão, aliás, que se utilizam ratos para fazer testes a medicamentos.
Vocês com certeza já ouviram a expressão "rato de laboratório", mas nunca ouviram peixe de laboratório, pois não?
A semelhança entre homens e ratos, infelizmente para os homens, não se fica pela genética.
Um homem é um ser fisicamente pujante. Um homem tem corpo para trabalhar, tem corpo para levar palmadas de força da vida e aguentar-se de pé. Ironicamente, com um pé apenas se mata um rato.
Aliás, os homens são inteligentes o suficiente para matar os ratos sem sequer ser preciso usarem da força. Nos laboratórios, com medicamentos. Em casa, com comida envenenada. Na vida, com o desprezo de quem, em vez de os matar, os põe numa gaiolazinha invisível, às voltas, às voltas, e que quando os vê correr, para fugirem do facto de serem ratos, os vê impotentes dentro dum círculo que vai rodando, qual tapete de passadeira de ginásio, e que os vai fazendo correr sem nunca saírem do sítio.
A diferença principal entre os homens e os ratos é esta: é esta pequenez em termos de inteligência, uma pequenez tal que pode inclusivé fazer pensar ao rato que pode enganar o homem.
Tem a sua piada que os homens deixem a comida nos cantos de suas casas para que os ratos morram dela. Reparem: a matreirice do rato em esconder-se sempre num canto, para que não o vejam. A fuga quando reparam nele, sempre com intenção de passar despercebido, mas dando demasiado nas vistas. A vontade de conseguir viver no que o homem construiu, habitar-lhe a casa, roubar-lhe o lá tem, sempre escondido, sempre na penumbra, sempre fugindo quando confrontado com o homem. E o homem, que se fazendo de parvo já o topou há muito, porque um rato é um rato e deixa sempre um rasto de mijo ou de merda que não engana ninguém, prepara-lhe a morte sem sequer que ele saiba que reparou nele.
O rato olha para o que o homem tem, e deseja-o: o homem dá-lho. Mas não lho dá sem a certeza de que isso o vai levar ao sofrimento. Porque a comida é do homem, foi comprada por ele. Aquilo que o rato quer provar, o homem já há muito tempo sabe o que é.
Eu não sou má pessoa, eu juro. Eu seria incapaz de matar um rato. Eu preferia vê-lo viver com esse estigma de o ser, preferia visitá-lo de vez em quando, na sua gaiola, e olhar para ele como que lhe perguntando: "então, meu nojento, continuas às voltas sem sair do sítio?", lembrando-lhe que eu sim sou homem, e ele não, é rato.
Por mais que se esforce, um rato será sempre um rato.
Há-de sempre olhar o homem com inveja, porque sabe que nunca o será, porque sabe que há coisas que os ratos fazem aos homens que os homens não fazem aos ratos.
Corre ratinho, corre.
Está aqui um homem a topar-te.
Vocês com certeza já ouviram a expressão "rato de laboratório", mas nunca ouviram peixe de laboratório, pois não?
A semelhança entre homens e ratos, infelizmente para os homens, não se fica pela genética.
Um homem é um ser fisicamente pujante. Um homem tem corpo para trabalhar, tem corpo para levar palmadas de força da vida e aguentar-se de pé. Ironicamente, com um pé apenas se mata um rato.
Aliás, os homens são inteligentes o suficiente para matar os ratos sem sequer ser preciso usarem da força. Nos laboratórios, com medicamentos. Em casa, com comida envenenada. Na vida, com o desprezo de quem, em vez de os matar, os põe numa gaiolazinha invisível, às voltas, às voltas, e que quando os vê correr, para fugirem do facto de serem ratos, os vê impotentes dentro dum círculo que vai rodando, qual tapete de passadeira de ginásio, e que os vai fazendo correr sem nunca saírem do sítio.
A diferença principal entre os homens e os ratos é esta: é esta pequenez em termos de inteligência, uma pequenez tal que pode inclusivé fazer pensar ao rato que pode enganar o homem.
Tem a sua piada que os homens deixem a comida nos cantos de suas casas para que os ratos morram dela. Reparem: a matreirice do rato em esconder-se sempre num canto, para que não o vejam. A fuga quando reparam nele, sempre com intenção de passar despercebido, mas dando demasiado nas vistas. A vontade de conseguir viver no que o homem construiu, habitar-lhe a casa, roubar-lhe o lá tem, sempre escondido, sempre na penumbra, sempre fugindo quando confrontado com o homem. E o homem, que se fazendo de parvo já o topou há muito, porque um rato é um rato e deixa sempre um rasto de mijo ou de merda que não engana ninguém, prepara-lhe a morte sem sequer que ele saiba que reparou nele.
O rato olha para o que o homem tem, e deseja-o: o homem dá-lho. Mas não lho dá sem a certeza de que isso o vai levar ao sofrimento. Porque a comida é do homem, foi comprada por ele. Aquilo que o rato quer provar, o homem já há muito tempo sabe o que é.
Eu não sou má pessoa, eu juro. Eu seria incapaz de matar um rato. Eu preferia vê-lo viver com esse estigma de o ser, preferia visitá-lo de vez em quando, na sua gaiola, e olhar para ele como que lhe perguntando: "então, meu nojento, continuas às voltas sem sair do sítio?", lembrando-lhe que eu sim sou homem, e ele não, é rato.
Por mais que se esforce, um rato será sempre um rato.
Há-de sempre olhar o homem com inveja, porque sabe que nunca o será, porque sabe que há coisas que os ratos fazem aos homens que os homens não fazem aos ratos.
Corre ratinho, corre.
Está aqui um homem a topar-te.
quarta-feira, 21 de julho de 2010
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